10. Sócrates: ética e julgamento

A postura de Sócrates de ensinar as pessoas, antes de tudo, a pensar, torna-se mais bela se verificarmos que se soma à sua concepção de ética.

A ética pode ser resumida como a busca do aperfeiçoamento do indivíduo. Uma pessoa age eticamente quando seu ato pode levá-la a uma melhoria em seu caráter.

Para Sócrates, as pessoas agem de um modo correto, de um modo ético, porque sabem o que estão fazendo, porque efetivamente pensaram e entenderam o significado e as consequências de seu ato. Para ele, se uma pessoa conhece o bem, por meio do pensamento, irá agir no sentido de concretizá-lo.

Por outro lado, as pessoas fazem coisas erradas, ou “besteiras”, como diríamos hoje, porque não pensaram o suficiente antes de agir. O ser humano deveria controlar suas paixões, investigar os fatos sem se iludir com as aparências ou os preconceitos, buscando conhecê-los verdadeiramente.

Sócrates considera, assim, haver uma relação direta entre o pensamento e a ética, sendo aquele pressuposto desta. Também poderíamos concluir que a busca socrática do conhecimento possibilita uma ação ética que leva, por consequência, à felicidade. Assim, pensar permite ao indivíduo, em última instância, ser feliz.

Não obstante as inferências sobre a ética feitas acima, sabemos que Sócrates foi levado, em Atenas, a julgamento. Os cidadãos o acusaram de corromper a juventude e de cultivar novos deuses, violando a religião da cidade. Alguns diálogos escritos por Platão contam essa história: Eutífron, Apologia, Críton e Fédon.

Sócrates foi considerado culpado e condenado à morte. Ele poderia ter proposto uma pena alternativa e, depois, poderia ter fugido. Escolheu, todavia, morrer. Preferiu cumprir a lei a desobedecer. Qual a razão disso?

Em sua vida, ele sempre deu exemplos de cumprimento às normas políticas de Atenas, mesmo quando isso poderia causar constrangimentos perante os demais cidadãos. Ao obedecer à pena de morte, daria mais uma mostra de suas concepções cívicas, deixando para seus contemporâneos o exemplo do respeito aos preceitos normativos, ainda quando injustos.

Por outro lado, podemos focar não seus contemporâneos, mas os pósteros. A interpretação seria outra: Sócrates sempre duvidara da verdade consensual, derivada das discussões, em nome de uma verdade superior, somente acessível ao pensamento racional. A decisão que o condenara foi fruto de um consenso entre os cidadãos atenienses, que o julgaram culpado.

Ele, todavia, considerava seus atos louváveis. Fizera toda uma geração de jovens pensar. Ensinara o valor inestimável da dúvida eterna e constante. Questionara a autoridade dos “falsos sábios”. Ao aceitar a condenação à morte, mostrava para as gerações futuras os perigos de uma verdade meramente consensual e, portanto, equivocada. Nem sempre a verdade da maioria corresponde à verdade absoluta, que somente pode ser descoberta por quem se disponha a pensar.

Independentemente das interpretações possíveis, o comportamento de Sócrates resulta em algo admirável, seja enquanto lição para os demais atenienses, seja enquanto lição para nossa geração do presente. Sua ética, que liga a razão ao bom comportamento, é outra herança que nos enriquece. Só o pensamento racional leva à busca da verdade; só a busca da verdade permite a felicidade.

Referências:
CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia.
MASCARO, Alysson Leandro. Filosofia do Direito. São Paulo: Atlas, 2009, cap. 4.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)