08. Pré-Socráticos

Os filósofos pré-socráticos não viveram necessariamente antes de Sócrates. Muitos deles foram contemporâneos a ele, ou viveram posteriormente. Todavia, ao contrário dos filósofos “socráticos”, não colocaram o ser humano como tema central de suas reflexões.

Podemos, assim, agrupar tais filósofos sob o ponto de vista das questões que seus pensamentos enfrentam: são questões universais, preocupadas com os temas gerais que explicam a existência de todos os objetos, como, por exemplo, a qualidade essencial do SER. O filósofos pré-socráticos, assim, discutem a essência do cosmos (universo) e da phýsis (natureza).

Anaximandro de Mileto, nesse sentido, afirma que existe algo único que dá origem e causa o desaparecimento de todas as coisas. Podemos chamar esse “algo” de uma força ou uma energia, que dá um curso para o desenvolvimento dos seres na natureza.

Devemos notar uma característica do pensamento pré-socrático, que, de certa forma, também se conserva no pensamento socrático: a busca da completude. A mesma força de Anaximandro movimenta o universo, a natureza e a cidade.

Entre os pré-socráticos, torna-se célebre a divergência entre Heráclito e Parmênides, cada um dos quais afirmando que o SER, em essência, poderia ser explicado a partir de uma constatação oposta à feita pelo outro.
Heráclito de Éfeso considera o SER, em sua essência universal, como o constante movimento, a eterna mudança. Usando como exemplo os rios, cujo fluxo contínuo aparece sob a forma de uma imobilidade, afirma que todas as coisas, não obstante uma possível aparência de imobilidade, são, em verdade, móveis.

Um pensador que deseje chegar à verdade, assim, deve negar a ilusão causada pela aparência e constatar a mobilidade essencial de tudo. A chama de uma vela, noutro exemplo, parece imóvel; sua essência, porém, é um processo contínuo de combustão, um movimento, portanto.

Parmênides de Eleia, por sua vez, defende a tese oposta. Considerado por muitos o criador da lógica tradicional, desenvolve seu pensamento a partir de um raciocínio inflexível: o ser é; o não ser não é.

Partindo dessa constatação, jamais admite a hipótese de que algo que seja, deixe de ser, tornando-se o que não era (o não ser). Também refuta a ideia de que algo que não é transforme-se naquilo o que não seja (algo que era uma coisa se torne outra, que não era). O ser, portanto, sempre será; e o não ser, nunca será.

Seu pensamento considera que todas as coisas, em sua essência, são imóveis e imutáveis. O movimento e a mutabilidade consistem em formas aparentes do SER, que devem ser negadas pela razão, na busca da essência que explica o fenômeno.

Tornam-se famosas as aporias criadas por Zenão de Eleia, que demonstram, defendendo a posição de Parmênides, a impossibilidade lógica do movimento.

Conforme uma dessas aporias, um objeto em um ponto A jamais atinge um ponto B, pois para fazê-lo precisa percorrer infinitas metades entre os pontos, sendo necessário um tempo infinito para percorrê-las. Ou seja, o movimento do objeto de A para B é uma ilusão.

Outra aporia consiste em afirmar que uma flecha atirada contra o alvo, se focada em cada instante de seu aparente movimento, será vista como estando em repouso. Ora, o movimento é a soma desses instantes, sendo que em cada instante o espaço percorrido é zero, resultando num movimento final igual a zero. A chegada da flecha ao alvo também é ilusória.

Para finalizar, devemos destacar novamente o caráter das preocupações dos filósofos pré-socráticos: o SER em suas manifestações universais. São discussões abstratas que buscam os fundamentos últimos da completude.

Referências:
CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia.
MASCARO, Alysson Leandro. Filosofia do Direito. São Paulo: Atlas, 2009.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)