07. Sofistas

Um dos primeiros grupos de pensadores na Grécia Antiga foi chamado de sofistas. Seus pensamentos eram diversificados, mas, essencialmente, convergiam para a superação da fundamentação mítica do universo e das sociedades humanas.

Muitos sofistas dominavam, entre outras técnicas, a “arte da palavra” ou do “discurso”. Estudavam os mecanismos de argumentação e convencimento utilizados nas discussões e cobravam para ensiná-los. Alguns afirmam que foram os primeiros professores particulares da história.

Pensando no contexto da democracia ateniense, a importância dos sofistas cresce significativamente. É interessante ter em mente que a base da política de Atenas era a participação dos cidadãos na Assembleia em igualdade de condições (isegoria), ou seja, todos tinham o mesmo direito de falar em público. Se o peso inicial da palavra era o mesmo, destacar-se-ia aquele cidadão que pudesse fazer o melhor discurso.

Pois bem, os sofistas, entre outras coisas, ensinavam técnicas para se fazerem discursos convincentes. Daí muitos cidadãos passarem a procurá-los, pagando altas somas, para educarem seus filhos, na expectativa de que se tornassem ótimos oradores e, por consequência, atenienses memoráveis.

Mas, se eram procurados e cobravam caro por seus ensinamentos, estavam também sujeitos a críticas. Por um lado, os cidadãos tradicionais, dotados de um pensamento aristocrático (governo dos melhores), questionavam os ensinamentos sofísticos. Segundo eles, os sofistas ensinavam a persuadir, mas não ensinavam as virtudes cívicas, que dependiam de outros fatores, como a estirpe e o caráter. Assim, os jovens educados pelos sofistas seriam ótimos oradores, mas não necessariamente teriam os outros requisitos indispensáveis para serem bons cidadãos.

Por outro lado, os sofistas eram criticados pelos filósofos adeptos de Sócrates (socráticos). O foco da crítica estava no fato de a maioria dos sofistas não acreditarem na existência de uma verdade universal (alethéia), mas apenas de uma verdade relativa derivada do debate e do convencimento (doxa).

Independentemente das críticas, o papel dos sofistas é dos mais relevantes na formação da cultura democrática ateniense. Seja atuando enquanto professores, seja participando de infindáveis discussões públicas, eles disseminam entre os jovens e os cidadãos uma grande paixão pelo debate e pelo questionamento, incentivando o uso da palavra e da argumentação. Tal ambiente culmina nas discussões realizadas na Assembleia, moldando democraticamente a cidade de Atenas.

Também devemos ressaltar que os sofistas problematizam a completude do mundo grego. Não acreditam, no geral, que seja possível encontrar um fundamento na natureza (phýsis) para a existência humana na cidade (Pólis), sob a égide das normas (nómos).

Enquanto o desafio dos filósofos era demonstrar que as normas criadas pelos gregos derivavam harmonicamente do universo e da natureza, os sofistas negavam tal derivação.

Dois grandes grupos de sofistas podem ser apontados. Os sofistas naturalistas não acreditavam que as normas humanas pudessem corresponder às normas naturais, por incapacidade dos homens. Já os sofistas convencionalistas, por sua vez, não acreditavam que as normas humanas tivessem que corresponder às normas naturais, sendo autônomas e construindo uma realidade própria.

Infelizmente, durante séculos, os sofistas foram considerados pensadores menores e desprezados por uma tradição socrática que sequer os nomeia como filósofos. Há um movimento no sentido de reabilitarmos seus pensamentos e os problemas que trouxeram à busca da verdade que não recorre aos mitos.

Referência bibliográfica:
BILLIER, Jean-Cassier e MARYIOLI, Aglaé. História da Filosofia do Direito. Barueri: Manole, 2005, cap. 1 e cap. 2 (item 2) – pp. 57 a 67.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)