05. A Razão

O principal instrumento de que se vale o filósofo para estruturar seu pensamento e para medir o grau de veracidade de sua tese é a RAZÃO.

Duas palavras da cultura antiga, ratio, de origem latina, e lógos, de origem grega, dão o significado original para nossa palavra razão: ao mesmo tempo, significam pensar e falar, de um modo organizado e proporcional, construindo um discurso claro e compreensível para outros.

Podemos considerar que razão designava, assim, ao mesmo tempo, o encontro, no plano do pensamento, com a ideia fundamental sobre alguma coisa e a transformação dessa ideia em um discurso, em uma fala que pudesse ser comunicada de modo compreensível a outras pessoas.

Também podemos considerar que a palavra designa o próprio mecanismo de descobrir o princípio de organização de alguma coisa, ideal ou concreta, de tal sorte que essa coisa, depois de vista como organizada “racionalmente”, pode ser mais facilmente compreendida pelas pessoas.

Assim, a Razão consiste no princípio último de organização da realidade, que, se descoberto pelo filósofo, revelará a ele a verdadeira estrutura do ser, compreensível e comunicável.

Nesse movimento de busca da verdade, a Razão precisa vencer alguns obstáculos, que desviam o filósofo de seu encontro. Um grande obstáculo é a aparência ou a ilusão que, trazida pelos costumes, pelos preconceitos, pelo imediatismo das pessoas, revela apenas uma falsa organização do ser e impede o acesso a sua estrutura mais profunda e verdadeira, também chamada de sua essência.

Outros obstáculos são as paixões, forças cegas, caóticas, desordenadas e contraditórias, que afastam o filósofo da postura prudente e controlada que deve nortear o pensamento.

Também a religião se opõe à Razão enquanto critério da verdade. A postura religiosa valoriza a autoridade de quem produz o discurso, derivando-a de uma revelação divina. Isso é inaceitável sob o ponto de vista racional, pois a verdade deve ser buscada pelo filósofo, tornando-se fruto de seu trabalho intelectual, sendo muito mais transpiração do que inspiração.

Da religião deriva também a crença de que a verdade pode derivar de um êxtase místico, de uma relação direta entre o ser divino e seu profeta, sem passar pelo intelecto da pessoa “iluminada”. Tal estado é quase o oposto da postura racional, pois traz uma sensação de encontro com a verdade não comunicável, que somente pode ocorrer naquele que entrou em contato com os deuses.

O filósofo luta contra os obstáculos acima, movimentando seu pensamento em busca da verdade, que consiste, conforme afirmado, no encontro com o princípio de organização ou de constituição das coisas e dos fenômenos. Ou seja, no encontro da Razão, do lógos de cada coisa.

bibliografia sugerida: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Unidade II, cap. 1.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)