04. A Filosofia: caracteres gerais e diferenciações

O novo modo de pensar que surge entre os gregos, chamado Filosofia, “funciona” a partir de alguns mecanismos peculiares. O filósofo “pensa”, naquele momento, seguindo um mesmo roteiro básico.

A busca pela verdade deve problematizar toda a qualquer explicação preestabelecida, questionando-as. As explicações míticas, aceitas por força da tradição, precisam ser submetidas a uma reavaliação, pois não satisfazem mais os novos critérios que norteiam o pensamento. As aparências nem sempre revelam a realidade fundamental de alguma coisa, e aquelas explicações que se limitam a encontrar essa aparências também precisam ser descartadas.

O novo procedimento filosófico, de busca incessante, elege a RAZÃO como critério para se chegar à verdade, negando importância a outros critérios que se pretendam superiores a ela. Assim, por exemplo, o já citado pensamento mítico é desconsiderado, por submeter a razão às narrativas envolvendo seres sobrenaturais.

O grande desafio do filósofo é encontrar explicações que se bastem na própria razão, sendo satisfatória sem a necessidade de recorrer a fundamentos sobrenaturais ou irracionais. Para vencê-lo, deve constantemente demonstrar e fundamentar (racionalmente) suas afirmações, apresentando argumentos e submentendo-as às dúvidas e às discussões.

O bom filósofo consegue formular teorias cujos argumentos racionais podem ser submetidos a severas discussões, que questionam sua estrutura e seu fundamento, sem perderem sua força de convencimento.

Além disso, o discurso filosófico opera com dois mecanismos típicos: a generalização e a diferenciação. O filósofo deve ser capaz de vencer a ilusão causada pelas aparências e encontrar, racionalmente, o que há de comum entre objetos ou fenômenos (que parecem diferentes entre si), catalogando-os em um único grupo geral. Ou ainda deve ser capaz de fazer o oposto, mostrando que a semelhança entre alguns objetos ou fenômenos é apenas aparente e demonstrando as características próprias de cada um deles.

Convém constatar que a Filosofia diferencia-se do Mito sob alguns aspectos.

Inicialmente, a explicação mítica volta à origem das coisas e dos fenômenos, encontrando, nessa origem, uma narrativa que recorre aos deuses. Já a explicação filosófica, por sua vez, não se limita a buscar a origem dos fenômenos, embora também se preocupe com isso. A Filosofia busca a explicação sobre tudo, em todos os tempos, durante todo o tempo.

Ainda podemos diferenciá-los alegando que o Mito explica a origem, conforme dito, recorrendo aos seres divinos. Todas as coisas derivam de atos que envolvem deuses. Já a Filosofia limita-se a explicar as coisas e os fenômenos a partir de elementos naturais e de seus movimentos, sem o recurso ao sobrenatural (que estaria fora da natureza e, portanto, seria inexplicável racionalmente).

Um exemplo de explicação filosófica é a tentativa de reduzir todos os objetos aos quatro elementos naturais (água-úmido, ar-frio, fogo-calor, terra-seco) e seus movimentos de combinações e repulsas. Os seres são reduzidos a tais elementos e suas características explicadas pelo predomínio de um deles ou por suas combinações.

Por fim, convém acrescentar que a explicação mítica não é racional, ou seja, não se preocupa com a eliminação de contradições ou com o esclarecimento do incompreendido. Trata-se de um discurso movido pela autoridade de quem o revela, cercado de mistérios e sem a necessidade de um encadeamento lógico.

A explicação filosófica não aceita tais “irracionalidades”. Seu discurso precisa ser coerente, não podendo justificar-se na autoridade de quem o profere, mas precisando submeter-se, reiteradamente, à prova das discussões públicas. As contradições precisam ser eliminadas, assim como o incompreendido torna-se inaceitável e precisa ser esclarecido.

Podemos constatar, dadas as colocações anteriores, que a Filosofia é um modo de pensar que possui características próprias e diferenciadoras, delimitando-se como um mecanismo de pensamento novo e inovador no momento em que surge.

bibliografia sugerida: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Unidade I, cap. 1 e cap. 2.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)