01. Pensamento Mítico

A Filosofia é um modo de pensar específico, que supera, em determinado momento histórico, um outro modo de pensar, até então hegemônico.

Esse modo de pensar superado pela Filosofia chama-se Mito. Em termos genéricos, consiste numa narrativa sobre a origem de alguma coisa. Assim, as histórias que explicavam o origem do mundo, dos seres vivos, do bem e do mal, das guerras etc., eram mitos.

Porém, havia algo de comum a todas essas histórias: sempre explicavam as coisas ou acontecimentos terrenos a partir de deuses ou seres sobrenaturais (ou seja, “fora da natureza”, “fora do mundo”). Os mitos eram histórias narradas por pessoas específicas, escolhidas pelos deuses para transmiti-las aos humanos, e esclarecê-los a respeito da existência de tudo.

Normalmente, tais explicações davam-se de três modos básicos:

1. Encontrando “pai e mãe” de tudo: as histórias míticas podem ser genealogias, ou seja, literalmente, a busca de um discurso que explique a origem das coisas ou dos acontecimentos a partir do deuses.

Um exemplo de explicação mítica: uma pessoa tornou-se apaixonada por outra porque foi ferida pela flecha de um deus, Eros (ou Cupido). Este deus, por sua vez, é filho de Penúria (deusa faminta, miserável e sedenta) e Poros (deus da astúcia, da busca de estratagemas para resolver os problemas).

Desse modo, pessoa apaixonada, ferida por Eros, torna-se faminta e sedenta de amor. Busca diversos estratagemas para ser amado e satisfeito, oscilando entre a tristeza e o desamparo, por um lado, e a alegria e a vivacidade, por outro.

Veja: o comportamento da pessoa apaixonada está satisfatoriamente explicado, graças à “filiação” desse comportamento aos deuses que o causam. Uma pessoa apaixonada fica do modo que a caracteriza porque foi ferida por um deus e carregará consigo as características desse deus, filho de outros deuses.

2. Outra forma de narrar dos mitos é justificando as coisas e os acontecimentos não pela filiação, mas por conflitos e alianças envolvendo os deuses, que interferem na vida terrena. Uma briga entre os deuses pode resultar no apoio ou na imposição de dificuldades aos atos de determinados mortais, conforme esses mortais gozem da simpatia ou da antipatia daqueles envolvidos na briga.

Precisamos destacar que, para as civilizações marcadas pelo pensamento mítico, haveria duas temporalidades distintas: o tempo fraco, típico dos acontecimentos banais, que não duram, são efêmeros; e o tempo forte, marcado por acontecimentos extraordinários, capazes de durar, de permanecer ao longo da história.

Para tais sociedades, os atos meramente humanos são incapazes de extrapolar os limites da temporalidade fraca e de atingir a temporalidade forte, perdurando. Tudo aquilo o que é feito apenas pelos humanos irá durar pouco e se extinguir, como a vida humana se extingue.

Por outro lado, em determinadas situações, os atos humanos podem contar com o apoio dos deuses. Esse apoio é capaz de elevar o ato da temporalidade fraca para a temporalidade forte, dando a ele ou a seus frutos a possibilidade de permanecer na história. Por isso, quando os seres humanos pretendem construir coisas grandiosas, pedem, sempre, o apoio dos deuses.

Um exemplo disso é a Guerra de Troia. Especificamente no tempo fraco, seria um acontecimento banal, incapaz de perdurar: um conflito envolvendo gregos e troianos, que logo seria resolvido. Contudo, a partir do momento que sua existência extrapolou os limites do razoável (chegando a 10 anos!), a mitologia passou a explicá-lo como um ato tocado pelos deuses.

Especificamente, a Guerra de Troia passa a ser justificada não como um mero conflito decorrente de interesses comerciais opostos, mas como um conflito surge após uma controvérsia entre três deusas do Olimpo. Essas deusas se dividem, apoiando gregos ou troianos e levando consigo o apoio de outros deuses.

Agora, o fato de uma Guerra entre humanos ter durado tanto tempo e se transformado em um acontecimento inesquecível pode ser explicado por ter envolvido, em última instância, um conflito suprahumano, entre deuses. A temporalidade da Guerra de Troia tornou-se forte.

3. Além dos modos descritos acima, os mitos podem explicar os acontecimentos terrenos justificando-os como recompensas ou castigos impostos pelos deuses aos mortais.

Coisas excepcionalmente boas ou ruins que acontecem a determinada pessoa são justificadas como uma recompensa ou um castigo decorrente da satisfação ou da insatisfação dos deuses para com seus comportamentos.

Quando uma pessoa padece de males extremos, investiga sua vida pretérita para tentar encontrar algum comportamento que tenha desagradado algum deus. Quando encontra ou pensa encontrar esse comportamento, tentará corrigi-lo oferecendo algo para compensar sua falha. Muitas vezes fará o sacrifício de um animal e até, em casos mais graves, de um ente querido.

No mesmo sentido, mas de modo preventivo, aquele que embarca em uma jornada longa ou perigosa, buscará agradar alguns deuses, por meio das oferendas e dos sacrifícios, a fim de obter seus apoios e tornar-se exitoso. A falta dessas medidas preventivas soará como perigosa e eventual prenúncio de malogro da iniciativa.

O pensamento mítico, portanto, recorrendo a um desses três procedimentos básicos, torna-se capaz de explicar, de um modo satisfatório para determinadas civilizações, os principais fatos e acontecimentos da vida das pessoas. De um modo mais geral, a própria existência do mundo (Cosmogonia) pode ser facilmente compreendida pelas pessoas.

bibliografia sugerida: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Unidade I, cap. 2, “Mito e Filosofia”.

Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)