19. Rompimento judaico-cristão

Analisando as correntes filosóficas da antiguidade outrora apresentadas, podemos constatar que todas foram imanentes. Em linhas gerais, isso significa que construíram sistemas que poderiam ser explicados a partir de elementos e forças existentes em seu interior, sem recurso a fenômenos externos.

Podemos apresentar alguns exemplos. Platão, nesse sentido, faz uma filosofia que parte das ideias. Essas correspondem às verdades universais e eternas, às essências de todos os objetos naturais. A partir das ideias, estruturas mais amplas de seu sistema, todas as coisas, em suas aparências múltiplas, podem ser explicadas.

Podemos considerar sua filosofia imanente. Aquilo que de mais amplo existe é a ideia; ela é o universal. Afastando-se dela, no interior de seu sistema, estão os fenômenos reais, que correspondem à natureza. O ser humano, por sua vez, enquanto ser natural, pertence ao mundo real, padecendo das limitações do concreto. Mas é inegável que o ser humano possui uma capacidade inata de compreender a ideia, chamada razão.

O sistema de Platão, portanto, termina na ideia, que é acessível às pessoas por meio do pensamento racional. Em sendo assim, todos os fenômenos, menores do que a ideia, podem ser também compreendidos, estando suas causas dentro desses limites universais. Nada escapa à universalidade da ideia.

Avançando para o Helenismo, podemos exemplificar a partir do estoicismo. Conforme a filosofia estoica, haveria uma fusão do universal com o natural. Seu sistema encontrar-se-ia limitado pela natureza. Todos os fenômenos são considerados naturais, possuindo existência concreta.

As coisas seriam compostas por matéria inerte e perpassadas por uma força universal, chamada simpatia. Essa força movimentaria todas as coisas e faria evoluir todos os seres, resultando, inclusive, na perspectiva humana, em um destino.

Novamente temos um sistema filosófico em que todas as coisas são internas às fronteiras universais, neste caso correspondendo à natureza. Convém destacar, ainda, que a simpatia é uma força racional, que pode ser compreendida e pode explicar tudo. Portanto, o estoicismo encontra causas naturais e explicáveis para todos os fenômenos.

A formação de uma filosofia derivada do pensamento judaico-cristão, no final da antiguidade, explicita um rompimento com essa imanência. Surge uma nova esfera, além do universal, que não pode ser explicada pela razão. Essa esfera é Deus.

Na perspectiva judaico-cristã, tudo o que existe no universo foi criado por Deus. Todas as forças que atuam na natureza e a própria natureza derivam da vontade divina. Mas Deus não se limita ao que existe no universo e deriva da criação; sua essência transcende o próprio universal.

A filosofia, marcada pelo cristianismo, terá de enfrentar esse problema da transcendência divina. Ela deverá aceitar sua incapacidade de explicar Deus e de entender racionalmente Sua vontade. Conforme o pensamento cristão, o ser humano, para entrar em contato com Deus, não deve fazer uso da razão, limitada ao universal, mas deve possuir outro instrumento, a fé.

Os paradigmas tradicionais da filosofia grega estão modificados. Abdica-se à onipotência da razão, retirando-se do ser humano a pretensão de compreender tudo.

Com a transcendência divina, algumas verdades são transformadas em dogmas. São afirmações que não podem ser demonstradas pela razão, mas devem ser aceitas pela fé. O principal desses dogmas é o da própria existência de Deus, enquanto divindade única e onipotente, onipresente e onisciente.

A filosofia cristã precisará enfrentar as limitações da razão,  correndo sempre o risco de enfraquecê-la de modo excessivo. Para tais filósofos, não resta dúvidas de que a fé deve prevalecer ante a razão. Em alguns casos, esse predomínio da fé será excessivo, prejudicando a capacidade reflexiva do pensamento.

Para os filósofos gregos, todos os acontecimentos podem ser explicados. A razão permite ao ser humano compreender tudo e, assim, nortear sua vida no sentido adequado, levando-o à felicidade. Com a filosofia cristã, a situação se modifica. Nem tudo pode ser explicado pela razão; Deus, o fundamental de tudo, é incompreensível racionalmente. Para agravar a situação, esse mesmo Deus incompreensível, esporadicamente, interfere no mundo, modificando a natureza. Além disso, também julga as pessoas, avaliando seus atos como bons ou maus.

O ser humano, em sua vida, não mais consegue determinar, apenas com o uso da razão, o sentido de seus atos. Sua felicidade não depende mais apenas de seu intelecto. Por mais que se esforce, não conseguirá compreender tudo e não conseguirá saber se agrada ou não a Deus.

Até o cristianismo, quando falamos em ética e na conduta correta, falamos que o ser humano deveria pensar, deveria usar sua capacidade racional. Sócrates, Platão, Aristóteles, os epicuristas, os estoicos, Cícero, todos defendiam, cada um a seu modo, que para ser feliz, o ser humano deveria, antes de agir, pensar, raciocinar.

Isso não bastará para a filosofia cristã. A felicidade humana deriva de Deus. Somente aproximando-se Dele, as pessoas podem praticar aquilo o que Deus reputa o bem e chegar à felicidade. Mas a razão não leva tão próximo de Deus quanto a fé.

Um novo elemento entra na ética cristã, portanto: a fé. Antes de agir, as pessoas devem, principalmente, ter fé. Somente ela extrapola os limites do universal e aproxima as pessoas de Deus.

Se os filósofos gregos e helênicos situavam a fé como um inimigo da razão, equiparando-a às paixões que perturbam as pessoas e atrapalham em suas decisões, os filósofos cristãos elevam-na ao mais alto patamar, superando a própria razão. Agora, é esta que pode interferir negativamente nas decisões humanas, diminuindo o grau de fé que as motiva.

A filosofia cristã deriva, pois, do rompimento judaico-cristão causado pela transcendência de Deus. Essa transcendência limita a razão e fortalece um novo elemento na existência das pessoas: a fé. Os filósofos cristãos deverão lidar com essa transcendência e delimitar o espaço da razão, dando predomínio à fé como determinante da conduta.

Referências:

BILLIER, Jean-Cassier e MARYIOLI, Aglaé. História da Filosofia do Direito. Barueri: Manole, 2005, pp. 112-133.


Autor: Prof. Adriano Ferreira

Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP) Doutor em Ciência Política (PUC-SP) Doutor em Literatura Brasileira (USP)